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Malandragem Lusitana

Todos sabemos que a base de uma relação é a confiança, o que talvez explique porque a maioria delas sucumbe. É mais ou menos o que ocorre com o Porto e seu sistema de transporte público. Para adentrar em um comboio, metro, autocarro ou elétrico, não é necessário passar por nenhuma catraca ou roleta; o ingresso é feito através da validação (ou não) do seu Andante (espécie de Bilhete Único tripeiro) e todo o resto já está resolvido, restando ao tripulante apenas a missão de desfrutar de uma calma e tranquila viagem, sem a multidão esmagada que tão costumeiramente vemos no Rio de Janeiro e em outras metrópoles populosas do nosso Brasil.

Como nem tudo são flores (pouquíssimas coisas são flores, a bem da verdade), a forte tentação de viajar sem pagar, de graça, estremeceu as bases do casamento entre povo e Estado, tendo como consequência o advento dos Picas. Sim, é isso mesmo: os fiscais de passagem em Portugal são chamados de Pica, contratados pela empresa de transporte através de uma terceirizada chamada Anthea. O ingrato trabalho consiste em formar grupos e se espalhar pelas estações de metrô, trem e ônibus, buscando os malandros que se arriscaram a viajar à borla. A vontade de não pagar, no entanto, está presente de forma intrínseca no ser humano, o que torna a disputa entre caloteiros e picas muito mais interessante. São diversos mecanismos utilizados para burlar o sistema, com direito a fogueteiro, demência forjada, desmaio falso e até fuga, mesmo. É uma disputa épica e que reúne todas as nacionalidades presentes na cidade, de portugueses a brasileiros, de cabo-verdianos a ingleses. Como vale-transporte praticamente inexiste no mercado de trabalho luso, poupar uns trocados na ida e volta para casa pode significar mais umas belas duas semanas de comida na mesa.

Uma vez capturado pelos brutamontes de tablet, não resta outra opção a não ser fornecer seus dados e esperar a famigerada COIMA chegar em sua residência. A facada varia entre 60€ a 120€, dependendo de sua pré-disposição em pagar a multa. Fornecer o endereço errado, nunca acusar o recebimento da carta/e-mail, entrar na justiça, mudar de nome... Postergar o dever é sempre possível e muitos o fazem, sem pudor. Meus jovens amigos portuenses acumulam as papeletas e riem-se delas. Não sei até quando, mas por enquanto estamos vencendo.

Por fim, mas não menos importante, no Porto existe um grupo que ficou conhecido como gunas, pois sempre viajvam à pala nos elétricos, pendurados nos bondes para não pagar a passagem. Esse estilo de deslocar-se recebeu o nome de “à guna”, que virou substantivo depois. O mais curioso é que os picas não se incomodam com os gunas nos bondes, é quase como se fizessem parte de uma atração turística da Invicta. Alguns deles até resolvem problemas no caminho, como retirar automóveis indesejados do trajeto, orientar um turista aqui e ali e até mesmo ajudar o maquinista na direção.

Resumindo: o Movimento Passe Livre seria bem feliz aqui.


Texto de Gabriel Cassar - nosso cronista querido <3


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